... and Metal for All: Kreator no Sá da Bandeira - 30.01.09
publicado por Lex
Quando saí do trabalho na 6ª à noite torci logo o nariz: S. Pedro não é metaleiro. Abotoei-me o melhor que pude e fiz-me à rua, tentando desviar-me das cascatas que jorravam pelas caleiras rotas. Um dos grandes flagelos da cidade do Porto são as caleiras rotas, definitivamente.
Entrar no Teatro Sá da Bandeira causa sempre sensação. Quem o vê de fora não imagina o luxo daquele interior que se apresenta tão decadente. Se lhe instalassem um sistema de ventilação que funcionasse (que é o senão que tenho a apontar ao espaço, para além de constatar que ali a Lei do Tabaco é letra morta), a cidade teria um local para concertos bem ao nível do comatoso Hard Club, apenas com um estilo diferente. E que estilo...

Às 20:30 a moldura humana já estava bem composta, apresentando-se uma sala sem muitos espaços vazios. Ao contrário de outros concertos, este não cobriu o Sá da Bandeira de negro. A cor começa a regressar à multidão metaleira por via da nova geração, que já chegou à conclusão de que é possível combinar-se cores no vestuário - sem serem os patches das bandas nos coletes.
Quando cheguei, os Emergency Gate já tinham tocado há muito, e para minha tristeza os Eluveitie já estavam em palco, pelo que me apressei a encontrar um local de onde pudesse ver alguma coisa. Arrumar o casaco encharcado ficaria para depois. Por ora estava ali a pingar para o chão, e estava muito bem.
A banda de folk da terra do edelweiss mostrou um óptimo nível de profissionalismo, e as músicas ao vivo soaram-me ainda melhor do que em estúdio, por incrível que pareça. Mérito que se deve também ao bom som proporcionado pelo Teatro durante todos os concertos, pois nunca tive nada a apontar nesse aspecto, mesmo tendo assistido ao espectáculo de diversos pontos da sala. O que é raro.
"Inis Mona" ao vivo nesta tour, mas na Holanda. Pelos vistos por cá não houve quem tivesse conseguido uma gravação da música completa, mas não vem por isso mal ao mundo.

Energia, ecletismo, originalidade e alma celta é o que os Eluveitie põem em palco. Dá um gozo do caraças ver um grunho como o Glanzmann acabar um grunhido visceral, pegar numa flautinha e debitar uma melodia quase feérica. :-D Também ninguém deve ter ficado indiferente às moças que integram a banda, em especial à Anna Murphy que, rodando a manivela da sua sanfona artesanal, fazia ventoinhas de meter inveja a qualquer metaleiro gadelhudo.
Após umas 4 ou 5 músicas, os Eluveitie despediram-se deixando practicamente toda a gente em clima de festa. Quanto a mim, faço questão de os ver novamente e de preferência com um concerto de duração decente. Mereciam mais tempo em palco.


Cá fora havia ainda gente a chegar. Veio pessoal de todo o país e Galiza, e um pouco por todo o lado se assistia ao reencontro de velhos amigos. Nem mesmo eu já passo sem dar de caras com dois ou três conhecidos. Um concerto de Metal já nem seria o mesmo sem esse tipo de colorido.
Dois dedos de prosa e uma t-shirt de Eluveitie depois, resolvi explorar o resto do Teatro e ver que tal se estava lá em cima nos balcões. Não terá sido alheio a isso o facto de eu saber de antemão a agitação que se gera no público durante Caliban. Ora, isso para um gajo alto e espadaúdo estará muito bem, mas para mim que sou de pequena estatura, é coisa que não convém muito. Como não me apetecia sair de lá esmagada/pisada/partida, e de caminho também gostava de poder ver qualquer coisa para o palco, subi.
No primeiro andar não se podia estar. Quer dizer, poder podia, caso alguém se tivesse lembrado que é má onda desatar a fumar num espaço com pouco mais de 2m de altura e sem ventilação. Então subi mais.
No 2º balcão até camarotes disponíveis havia, portanto viva o luxo! Pousei finalmente o casaco ainda molhado, alapei-me nas cadeiras de madeira e preparei-me para o pior: Caliban.


E antes que os fans da banda me crucifiquem, fiquem sabendo que afinal aquilo não é tão mau quanto eu pensava. É só mesmo quando se olha para o palco ou quando se ouve a voz menos urrada. :-D Mas fora de brincadeiras, até se ouve mais ou menos. Tecnicamente são competentes, houve por lá uma música com uma cadência meio estranha que se assemelhou muito a um coito interrompido... Mas fora isso, o sacrifício não foi tão grande quanto eu contava. Contribuiu também para a minha diversão o espectáculo que se passava lá embaixo: uma "mini-Wall of Death", umas ondas de pessoal empurrado para um lado e para o outro, e um moinho a tentar fazer ao certo... não sei o quê. Por "moinho" entenda-se um gajo que acha que andar ao mosh é girar os braços à maluca, sem ver se dá uma murraça em alguém ou não. Ou talvez fosse mesmo isso o que ele queria, partir o nariz deliberadamente ao próximo. Enfim... modernices. Por isso é que eu digo sempre que o mosh é uma coisa linda de se ver... ao longe. :-D
A dita "Wall of Death". Isto sim, é giro!

E finalmente, depois de cerca de uma hora de Caliban, chegam os Senhores da noite. E escrevo Senhores com S maiúsculo de propósito, pois quem tiver visto Kreator ao vivo alguma vez, já sabe que a sua prestação em palco é irrepreensível, mesmo com o peso de 4 décadas de vida e de quase 3 de Metal em cima daqueles ombros.
Foi a segunda vez que vi Kreator e a impressão foi precisamente a mesma: profissionalismo, dedicação, qualidade... e alma. Soam sempre ao mesmo? Não digo que não, afinal sempre se pautaram pela coerência ao longo dos seus trabalhos, e ultimamente não têm fugido à sonoridade mais
old-school. Como tal, também não seria lógico que fugissem à mesma postura old-school em palco. Têm demagogia anti-religiosa? Claro, ou não fosse a "Enemy of God" um dos seus hinos; louvam a cidade e o país onde que tocam porque sabem que no calor do entusiasmo, o pessoal adere sempre a esse momento e agradece o reconhecimento; puxam pelas vozes já estafadas do público no fim do concerto porque sabem que isso provoca sempre um grande efeito numa boa sala, bem composta - como foi o caso... Tudo clichés, talvez, mas tudo factores sem os quais um concerto de Thrash não saberia à mesma coisa. E ao mesmo tempo são todas coisas secundárias, porque o poder do som daqueles instrumentos, aliado a uma execução brilhante, remetiam para segundo plano tudo o que fugisse disso. A ajudar ainda ao conjunto, estavam os vídeos projectados na tela em fundo, que já vão sendo um elemento habitual em muitas bandas de todos os géneros.
"Extreme Aggression". Aqui sim, no concerto do Porto. Que brutalidade...

Do princípio ao fim do concerto não houve momentos mortos. Tanto público como banda comungavam da mesma vontade de fazer daquela uma noite inesquecível para todos. Comentários de "vão partir isto tudo, carago!" eram mais do que comuns, e a verdade é que algo se partiu, de facto.
Sensivelmente a meio de Kreator, partiu-se pelo menos uma das grades de protecção do fosso, pelo que eu pude perceber de onde estava a ver. Enquanto não foram buscar outra para a substituir e reforçar a barreira, uma fila quase ininterrupta de seguranças empurrava o público cerca de um metro para trás. A dada altura, o fosso deve ter ficado com uns 5 metros de largura para uns quantos fotógrafos, enquanto que o público deve ter sido practicamente esmagado lá na frente. Curioso foi ver que quem estava mais para trás nem teve que se mexer, pois a vontade de ficar na frente era tanta, que do meio da sala para trás a massa de gente não abalava, mesmo com os empurrões que vinham das grades. Mesmo nessas circunstâncias, o mosh foi tentado. Fica a intenção.
Apesar de não compreender o porquê do apertão (podiam simplesmente ter mantido a multidão controlada mas no mesmo sítio), louvo a capacidade de resposta da segurança. Podia ter havido ali uma desgraça, com tanta gente junta. Mas já não louvo tanto a maneira como esses homens insistem em tratar os crowdsurfers. Não há necessidade nenhuma de agarrar as pessoas por onde calha, e empurrá-los para fora como se fossem gado. Uma vez fora da barreira já não constituem perigo - são-no, sim, enquanto estão por cima do público, se não mantiverem os pés para cima. Mas uma vez caídos, que raio... Mandem-nos apenas sair rapidamente pelo lado e está feito.

O setlist de Kreator foi diversificado o suficiente para agradar a fans de todas a épocas. Quanto a mim, apenas faltou ali uma "Impossible Brutality", mas mesmo assim foi muito bom e cada tema foi acolhido com o mesmo entusiasmo, quer se tratasse de um dos velhinhos, quer fosse um dos do novo álbum, "Hordes of Chaos". Ei-la:

01. Intro: Choir Of The Damned
02. Hordes Of Chaos
03. Warcurse
04. Extreme Aggression
05. Phobia
06. Voices Of The Dead
07. Enemy Of God
08. Destroy What Destroys You
09. Pleasure To Kill
10. People Of The Lie
11. Coma Of Souls
12. The Patriarch
13. Violent Revolution
14. Terrible Certainty
15. Betrayer
16. Amok Run
17. Riot Of Violence
18. Flag Of Hate
19. Tormentor

Não encontro melhor que isto para descarregar o peso de uma semana de trabalho e de preocupações. Mesmo depois de uma molha monumental. Mesmo com o fumo de cigarro a lixar-me os olhos e o nariz. Mesmo só tendo conseguido beber uma cerveja, porque era um processo verdadeiramente penoso conseguir as senhas para as levantar no bar (e porque durante Kreator se acabaram os três barris de cerveja do bar).
Reuniram-se naquela noite no Teatro Sá da Bandeira cerca de 1500 almas, segundo os cálculos da organização que se ouviam nos corredores. Todos com as suas diferenças: uns por Eluveitie com o seu bailarico, (não sei se alguém por Emergency Gate), outros por Caliban com o seu mosh tão peculiar, outros exclusivamente por Kreator com o seu intento quase revivalista... Outros ainda pelo espírito de camaradagem e convívio em redor de umas quantas Sagres... mas todos sem excepção ali estavam para celebrar uma coisa em comum: o Metal.

Esta foi uma daquelas noites que nos lavam a alma. Sinceramente. Não sou fã de Kreator do género de os ouvir todos os dias e de ter todos os álbuns deles, mas enquanto os seus espectáculos forem sinónimo de metal do puro e do duro, e enquanto arrastarem consigo uma legião de fãs que saibam celebrar o Som Eterno, lá estarei a marcar presença sempre que cá venham.

\m/

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